Pessimismo pós moderno: O tempo destrói tudo
Há uns dois anos atrás, assisti a um filme que trabalhava com uma idéia muito boa.Não é algo inédito, e nos últimos anos, creio eu, tem adquirido mais força.É a idéia de como nossa vida depende das circunstâncias e, como conseqüência, como ela pode mudar de um segundo pro outro. O filme era “Corra Lola Corra”, história de 20 minutos , contada três vezes , e cada final era bem diferente , isso porque ou a protagonista atrasava ou adiantava ou ia para o outro lado, enfim, coisas banais.
Essa semana assisti a outro filme, “Irreversível”, que trabalha essa idéia, porém de um jeito bem mais pesado onde podemos realmente sentir como o “tempo destrói tudo”.O enredo é bem simples, uma moça ao sair de uma festa é estuprada e seu namorado sai atrás de vingança. Porém o sentimento de impotência perante os fatos e a vida é cruelmente transmitido ao espectador. Primeiro pelas cenas chocantes. A de um homem tendo sua cabeça literalmente amassada e uma outra cena, em uma tomada só de dez minutos, da mulher sendo estuprada. Segundo, pela edição (narrativa) .O filme é contado de trás pra frente. À medida que a história vai se desenrolando você começa a compreender as atitudes dos personagens e se envolver com sua história... Porém já sabemos o final, e os momentos felizes ( que são muito bonitos ) tornam-se tragicamente felizes.
Depois tive a oportunidade de vivenciar o poder do tempo, já pensando sob essa ótica pessimista de que o tempo destrói tudo ... Estava caminhando com minha mãe na Av. Bandeirantes. Passamos por um ponto e fomos até mais adiante. Retornamos após uns 15 minutos a esse mesmo ponto e lá estava, um senhor enfartado, praticamente morto... Várias pessoas ao redor, médicos que passavam por ali tentando ajudar. Desespero, o resgaste não chegava, o senhor estava sem documentos, não havia ninguém que o conhecia... Enfim chegou o regaste. Voltamos para casa pensando na família do senhor: o que eles estariam imaginando? “Velho irresponsável, sai para andar e fica fazendo hora!....Que merda, tá na hora do almoço e ele não chega.... “ E o senhor? Que fim teve aquela agonia? Aquela demonstração tão linda de humanidade, solidariedade e doação das pessoas....
Depois o acaso nos coloca em mãos uma coluna social de um jornal, com uma nota de pesar. Um português havia morrido de enfarte fulminante enquanto fazia sua caminhada matinal no domingo na Av. Bandeirantes.
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